Laudo da Funarte aponta risco de “colapso” em estrutura de Teatro do CIC

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Com espaço para 906 poltronas, Teatro Ademir Rosa, do CIC, é o maior de Santa Catarina

Documento elaborado por técnicos do órgão federal aponta para “risco crítico” de teatro que recebeu reforma de R$ 8,5 milhões em 2012. Mesmo após queda de vara de iluminação em fevereiro deste ano, que poderia ter causado acidente fatal, Presidência da FCC desconsiderou pedido de técnicos para cancelar agenda de eventos. Uma reunião entre órgão e construtora responsável pela reforma do teatro está marcada para a quinta-feira (14) e deve discutir irregularidades apontadas no laudo da Funarte. 

Uma das marcas no piso de madeira no Teatro Ademir Rosa (TAR), no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, é estranha às artes. Não se trata da indicação de posicionamento de atores em uma peça ou músicos de bandas e orquestras que lotam as 906 poltronas do maior teatro de Santa Catarina. O risco de poucos centímetros é resultado da queda de uma das varas de iluminação do teatro na tarde do dia 2 de fevereiro deste ano. O rompimento da estrutura de suporte provocou a queda da vara de ferro de uma altura de sete metros. O impacto poderia ter causado consequências “possivelmente fatais” caso houvesse pessoas no palco, conforme relatam os servidores do teatro em comunicação interna encaminhada à presidência da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) no mesmo dia do acidente e também em outro alerta ainda em dezembro de 2015.

Em fevereiro, um laudo técnico foi solicitado pela Fundação ao Centro Técnico de Artes Cênicas (CTAC) da Funarte, localizado no Rio de Janeiro. O resultado da perícia, registrada dia 6 de julho no Sistema de Gestão de Protocolo Eletrônico (SGPE) do Governo do Estado, confirma as preocupações externadas pelos servidores do teatro e aponta outras irregularidades na estrutura da caixa cênica do Teatro. E aconselha a “intervenção imediata” do espaço para solucionar as falhas encontradas.

Caso seja fechado para reparos, seria a segunda interdição do TAR após a reforma de 2012. Em junho do ano seguinte, a Justiça Estadual determinou o fechamento do teatro para adequações em normas de segurança. O espaço cultural foi reaberto cerca de um mês depois.

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Conclusão de laudo da Funarte reforça críticas à infraestrutura da caixa cênica do TAR

O documento de 22 páginas elaborado pelo coordenador e pela cenógrafa do Centro Técnico, Fernando Frascari e Anna Flávia Oliveira, revela falhas na última reforma feita no local, entre 2011 e 2012, que custou mais de R$ 8,5 milhões aos cofres públicos. Em texto e imagens, os arquitetos da Funarte justificam o pedido de intervenção e deixam claro que os problemas encontrados estão relacionados ao não cumprimento de requisitos previstos no memorial descritivo do contrato de reforma do Teatro por parte da empreiteira contratada: a JK Engenharia de Obras Ltda EPP.

“Apresentamos o registro fotográfico da caixa cênica do Teatro Ademir Rosa, incluindo todos os itens que perfazem o conjunto, com observações pertinentes às falhas encontradas, muitas em total desacordo com os serviços contratados, listados no Memorial Descritivo da reforma, tanto em sua execução quanto nos materiais utilizados; observa-se claramente a falta de esmero profissional, situação essa que em diversos aspectos põe em risco a construção e seus usuários, infringindo até as Norma de Segurança da ABNT”, informa o laudo.

Medições fora do estabelecido em contrato, soldas mal feitas, varas de iluminação com distribuição de peso incorreta e material sem conformidade com memorial descritivo da obra foram alguns dos apontamentos feitos pelos técnicos da Funarte. Na conclusão do documento, a série de falhas serviu de justificativa para o pedido de intervenção imediata no teatro.

Confira as principais falhas apontadas pelo laudo no Teatro Ademir Rosa

"Frente às condições expostas no presente laudo, onde é visível que a estrutura metálica está em colapso eminente [SIC] e galopante, classificamos a recém reformada caixa cênica do Teatro Ademir Rosa, de uma maneira global, como de GRAU DE RISCO CRÍTICO, tendo em vista o impacto de desempenho, na maioria dos itens, tecnicamente irrecuperável para a finalidade de utilização a que se destina, sendo necessário a INTERVENÇÃO IMEDIATA PARA SANAR AS IRREGULARIDADES APONTADAS NESTE LAUDO DE INSPEÇÃO", conclui o laudo (destaque dos autores do relatório).

Vidas em risco e pedido de cancelamento de agenda

Imagens registradas por técnicos da FCC no dia do acidente com a vara de iluminação foram encaminhadas à Presidência da fundação

Um estrondo bem forte assustou servidores do Teatro Ademir Rosa por volta das 15h45 do dia 2 de fevereiro deste ano. Foi quando uma das varas motorizadas de iluminação despencou de uma altura de sete metros. Um dos elos de fixação da barra se rompeu, provocando a queda. Por sorte, nenhum técnico da Fundação Catarinense de Cultura trabalhava no palco no momento do acidente, quando ocorria apenas uma manutenção de rotina. Os últimos eventos ocorreram no começo de janeiro e os seguintes só estavam agendados para o final de março. Em comunicação interna encaminhada no mesmo dia ao gabinete da Presidência da fundação, quatro técnicos e a coordenação do Teatro informam sobre o acidente e sua gravidade:

“No momento não estava ocorrendo espetáculo, e a vara encontrava-se vazia, ou seja, sem nenhum cenário apoiado. Caso houvesse pessoas no palco no momento do acidente, as consequências seriam possivelmente fatais”.

Para não restar dúvidas sobre a situação da estrutura sobre o palco, os técnicos pedem reparos na caixa cênica ou o cancelamento de eventos devido ao risco de novos acidentes.

“Solicitamos que seja feita manutenção urgente, caso contrário, sugerimos que os eventos agendados para o mês de março de 2016 no Teatro Ademir Rosa sejam cancelados, posto que a atual condição coloca em risco a segurança de funcionários e artistas”.

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No mesmo dia do acidente, Presidência da FCC notificou construtora JK Engenharia ressaltando que obra ainda estaria na garantia

No mesmo dia da queda da vara, a presidente da Fundação, Maria Teresinha Debatin, encaminhou uma notificação à JK Engenharia para a mesma “iniciar urgentemente serviços de recuperação no Teatro Ademir Rosa -TAR”. No entanto, o documento não cita o acidente que ocorreu na mesma data da sua assinatura.

Em 4 de fevereiro, técnicos da Fundação se reuniram com responsáveis da construtora JK Engenharia para discutir problemas da estrutura do TAR. Na ata é mencionado um e-mail de um servidor da FCC, encaminhado dia 23 de fevereiro de 2015, quase um ano antes do acidente, onde consta que “duas varas elétricas estavam com problemas”.

Os alertas sobre as deficiências estruturais do Teatro seguiram em 2015. Em dezembro, a administração do TAR elaborou uma comunicação interna para a presidência da Fundação solicitando vistoria e reparos no espaço. No documento elaborado mais de dois meses antes do acidente, problemas com varas elétricas e rupturas nas soldas já estavam indicados pelos técnicos. Além disso, os servidores afirmam que a falta de segurança no urdimento – conjunto de traves no teto de um palco – foi um dos principais motivos para o fechamento do Teatro em 2009.

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Em dezembro de 2015, servidores do Teatro Ademir Rosa alertaram Presidência da FCC sobre o “risco de vida de técnicos e artistas” no palco do teatro

Construtora nega responsabilidade por problemas no teatro

Ainda na reunião de 4 de fevereiro, o engenheiro responsável pela empresa, Jacson Koester, afirmou em ata que a “falta de manutenção” no espaço e que “a alta taxa de utilização do teatro é um problema para acelerar a fadiga de todas as peças”. Em resposta à notificação da Presidência da FCC para o cumprimento do prazo previsto no Código Civil de garantia de obras, o responsável pela construtora reforçou a defesa de que não houve manutenção adequada nos equipamentos:

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Construtora JK Engenharia defendeu que os problemas indicados por técnicos da FCC foram resultado de falta de manutenção dos equipamentos


O documento de contra-notificação enviado pela construtora reforça que a obra foi devidamente entregue e cita um trecho do termo de recebimento definitivo, que teria sido feito pela FCC: “Durante o período de observação entre o recebimento provisório e o presente termo, atendeu às determinações que lhe foram feitas, ou seja, realizou o objeto de presente termo: reparos e consertos necessários devido a vícios, defeitos ou incorreções resultantes da execução de materiais empregados”.

O Farol Reportagem entrou em contato com a JK Engenharia para questionar sobre a negativa de reparos no Teatro Ademir Rosa e sobre os apontamentos feitos pelo laudo técnico do CTAC, da Funarte. Por e-mail, a construtora respondeu:

“Tomamos conhecimento da existência do laudo em apreço apenas com o recebimento de vossa mensagem, já que o mesmo não nos foi disponibilizado por quem de direito.

A empresa JK Engenharia de Obras Ltda., naquilo que for de sua responsabilidade diante do contrato executado e na forma prevista neste e na lei que rege a matéria, fará as devidas correções no local em questão”.

FCC chama construtora para discutir situação do teatro

O Farol Reportagem entrou em contato com a Presidência da FCC na segunda-feira (11) e fez questionamentos sobre as condições do Teatro Ademir Rosa e sobre o não fechamento do espaço para reparos após o acidente com a vara de iluminação em fevereiro. Em nota, o órgão público respondeu que “solicitou que a Fundação Nacional de Artes (Funarte) fizesse a vistoria na caixa cênica do Teatro Ademir Rosa, uma vez que a equipe do TAR verificou alguns problemas estruturais na parte do palco”.

A FCC não se posicionou oficialmente sobre a possibilidade de fechamento do teatro para reparos. O calendário de eventos do TAR para o mês de julho está praticamente lotado. O próximo espetáculo ocorre na quinta-feira (14).

A nota encaminhada na tarde de terça-feira informa ainda que a FCC agendou uma reunião com a construtora JK para a quinta-feira (14) para tratar sobre problemas apontados no laudo da Funarte:

“A empresa JK Engenharia Ltda., responsável pela última reforma feita no espaço, entre 2009 e 2012, em gestões anteriores, foi chamada para uma reunião nesta quinta-feira (14), onde serão expostas as questões apontadas no laudo para que sejam corrigidas. Os técnicos da FCC estão monitorando a estrutura e algumas intervenções já foram efetuadas para reforçar a segurança.”

Ainda na segunda-feira, a reportagem entrou em contato com o Departamento Estadual de Infraestrutura (Deinfra) sobre o cumprimento dos itens exigidos no memorial descritivo da obra de reforma do TAR, em 2012, e a respeito das inconformidades apontadas no laudo da Funarte. Até a manhã desta quarta-feira (13), nenhuma resposta havia sido encaminhada pelo órgão de controle de obras públicas de Santa Catarina.

Últimas do Farol

4 Comments

  1. Orivalda Silva
    julho 13, 2016

    O Teatro Ademir Rosa sempre foi o preferido pelo publico da Ilha, em razão da sua excelente localização, acustica e infraestrutura. Todos os eventos ali realizados vivem lotados. Acho estranha a insistencia para cancelamento de agenda. Por quê não consertam logo isso já que só ha eventos em finais de semana.sem cancelar a agenda (que parece mais boicote ao teatro que qualquer outra preocupação!). Será que não há interesses escusos visando transferir eventos importantes para outros teatros que vivem vazios! Como pode uma reforma feita em 2012 já estar precisando de reparos? Não há fiscalização destas obras???

  2. […] Em entrevista ao Farol Reportagem, promotor Aor Steffens Miranda informa que abriu um inquérito civil para apurar a execução do contrato de reforma do Teatro Ademir Rosa (TAR) e apontar quais foram os gestores públicos que receberam as obras mesmo com irregularidades apontadas em laudo do Centro Técnico de Artes Cênicas (CTAC), da Funarte, como revelou ontem o Farol Reportagem com exclusividade. […]

  3. Fernando
    agosto 19, 2016

    “Até a manhã desta quarta-feira (13), nenhuma resposta havia sido encaminhada pelo órgão de controle de obras públicas de Santa Catarina”: vocês podem usar a lei de acesso a informação para requerer este tipo de resposta. Boa investigação.

  4. novembro 20, 2016

    Boa noite, matéria muito boa, parabéns.

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